A importância de se reconhecer como negro

Mulato, moreninho, cor de jambo… Negro! Na minha concepção, caro leitor, não existem variações de negro, tampouco intensidade. Frases do tipo “sou mais negro que você” não fazem o mínimo sentido, partindo do ponto que estamos no mesmo barco (desde 1500) e tudo o que não precisamos é de uma disputa interna para ganhar status de “super negro”, mas sim, trazermos à tona a importância de se reconhecer como negro. Ainda em tempo: Assista a série “cara gente branca” (Dear White People), disponível na Netflix. Ela retrata com perfeição o assunto.

Por que preciso me reconhecer como negro?

Neste momento você deve estar se perguntando onde eu quero chegar com isso, certo? Certo, então vamos lá. Reconhecer-me como negro é valorizar o meu passado e ser um agente de mudanças no presente, para que no futuro a história não se repita. Eu preciso, como negro, ocupar o meu papel na sociedade, sabendo como resistir e não me deixar oprimir.

Bingo do preconceito

Não se reconhece como negro e acha que esse texto não é para você? E se a gente fizesse um jogo? Vai ser como uma cartela de bingo. Já passou por algumas dessas situações? Pode gritar “BINGO” e vir se juntar à luta com a gente. Que os jogos comecem.

• Já tomou o famoso ‘esculacho’ da PM e eles justificaram dizendo que “tinha cara de traficante”;

• Já foi ‘acompanhado’ de perto por um segurança em uma loja / supermercado;

• Já atravessaram a rua quando te viram se aproximando;

• Já ouviu a frase “até que pra uma moreninha você é bem…” seguida de um elogio;

• Já ouviu a frase “que morena dos traços finos”;

• Já foi reprovado / reprovada em uma entrevista de empregos, sem a menor justificativa.

Como foi o jogo? Aposto que não foi nem um pouco divertido, né? Eu sei, já passei por várias dessas situações e também levei tempo para que eu finalmente entendesse a importância de me reconhecer como negro. Negro, pobre, periférico, com tatuagens, voltando da faculdade de bermuda e chinelo e sendo abordado de uma forma nada amistosa pela polícia militar. Doeu? Doeu pra caramba, mas hoje eu sou parte da luta contra esse tipo de situação, contra esse tipo de comportamento.

Entendendo a importância de se reconhecer como negro

Reconhecer-se como negro é entender que, quando o Mano Brown canta o começo da música ‘A vida é desafio’, ele está nos convocando para fora da zona de conforto.

“Desde cedo a mãe da gente fala assim: ‘filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.’ Aí passado alguns anos eu pensei: Como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses… por tudo que aconteceu? duas vezes melhor como?”

 

 

Aceitar-se como negro é lutar pela mesma causa ao lado dos seus. É ter consciência negra além de um feriado para ficar em casa. É saber o seu papel e resistir, re-existir. Porque é fácil assinalar a opção ‘negro’ para entrar no sistema de cotas e não se importar com a mãe que chora a morte de um filho morto na comunidade porque a furadeira foi confundida com uma arma ou o guarda-chuva foi confundido com um fuzil. Podia ser eu. Podia ser você.

A importância de se reconhecer como negro é para que, apesar da nossa cor, aliás, “apesar” não, porque não tem pesar nem lamentação em ser negro. A importância de se reconhecer como negro é para que, além da nossa cor, haja respeito. Respeito ás nossas origens, à nossa religião – seja qual for -, respeito à mulher negra, marginalizada e que muitas vezes sustenta a casa sozinha (te convido a conhecer o Instituto Geledés – Instituto da mulher Negra). É para que saibam que temos as mesmas capacidades.

A importância de se reconhecer como negro, como diz o Emicida em uma de suas músicas: “Deixa eu devolver o orgulho do gueto, e dar outro sentido pra frase tinha que ser preto.”

 

Prazer, Diego Henrique, 26 anos, profissional da área de marketing e apaixonado pela escrita. Sou colunista de alguns sites por essa internet de meu Deus, falando sobre relacionamentos, comportamento e lifestyle.

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